sábado, 5 de setembro de 2015

A Visibilidade da Igreja e a Situação Atual


Apresentamos aqui alguns extratos de uma conferência de Dom Marcel Lefebvre. A dita conferência tem várias qualidades. Além de tratar com profundidade da questão da visibilidade de Igreja em meio à crise terrível que atravessamos, traz o pensamento autêntico de Dom Marcel Lefebvre, tal como ele o expôs aos seus padres pouco tempo depois de Dom Gérard Calvet ter feito seu acordo com o Vaticano, respondendo a alguns argumentos teológicos que este desenvolveu numa publicação do jornal Présent do dia 18 de agosto de 1988. Mesmo se em determinadas cartas, como é natural, S. Exa. tenha falado com maiores cuidados na esperança de mover os adversários a compreender e aceitar a Tradição, não resta dúvida de que seu pensamento estava longe de aceitar o Vaticano II ou a Missa de Paulo VI. Dom Lefebvre responde, assim, com antecedência aos argumentos que tentam justificar a atual posição de Campos. 
– Nossa tradução é tirada da revista Fideliter 66 de nov/dez de 1988, p. 27-31.


Dom Marcel Lefebvre

Meus caros Padres,

Penso que vós que saístes dos seminários e que, estais agora exercendo o ministério e que desejastes guardar a Tradição, vós que desejastes ser padres para sempre, como foram os santos padres de outrora, todos os santos vigários e os santos sacerdotes que nós mesmos pudemos conhecer nas paróquias. Vós continuais e representais verdadeiramente a Igreja Católica. Acredito que é necessário convencer-vos disso: “representais verdadeiramente a Igreja Católica”.

A Igreja Visível

Não quero dizer que inexista Igreja fora de nós; não se trata disso. Mas há pouco tempo, disseram-nos que é necessário que a Tradição entre na Igreja visível. Penso que se comete aí um erro muito grave.

Onde está a Igreja visível? A Igreja visível é reconhecida pelos sinais que ela sempre deu de sua visibilidade: ela é una, santa, católica e apostólica.

Eu vos pergunto: onde estão os verdadeiros sinais da Igreja? Estão eles na Igreja oficial (não se trata de Igreja visível, mas da Igreja oficial) ou conosco, no que representamos, no que somos? É evidente que somos nós que guardamos a unidade da fé, que desapareceu da Igreja oficial. Um Bispo acredita nisso, outro já não acredita, a fé é diversa, seus catecismos abomináveis estão cheios de heresias. Onde está a unidade da fé em Roma?

Onde está a unidade da fé no mundo? Fomos nós que a guardamos. A unidade da fé espalhada no mundo inteiro é a catolicidade. Ora, esta unidade da fé no mundo inteiro, não existe mais, não existe mais catolicidade. Existem tantas Igrejas católicas quantos Bispos e Dioceses. Cada um possui sua maneira de ver, de pensar, de pregar, de fazer seu catecismo. Não existe mais catolicidade.

E a Apostolicidade? Eles romperam com o passado. Se eles fizeram algo, foi exatamente isso. Eles não desejam mais o que é anterior ao Concílio Vaticano II. Vede o Motu Próprio do Papa que nos condena, ele diz muito bem: “a Tradição viva é o Vaticano II”: não se deve reportar mais a fatos anteriores ao Vaticano II, isso não significa nada. A Igreja guarda a Tradição de século em século. O que passou passou, desapareceu. Toda a Tradição encontra-se na Igreja de hoje. Qual é esta Tradição? A que ela se liga? Como ela se liga ao passado?

É o que lhes permite dizer o contrário do que foi dito outrora, sempre pretendendo que somente eles guardaram a Tradição. É o que nos pede o Papa: que nos submetamos à Tradição viva. Nós possuiríamos um conceito equivocado de Tradição, visto que ela é viva e evolutiva. Mas, isto é o erro modernista: o Santo Papa Pio X, na encíclica Pascendi, condenou estes termos: “Tradição viva, Igreja viva, fé viva”, etc, no sentido que os modernistas os entendem, ou seja, da evolução que depende das circunstâncias históricas. A verdade da Revelação, a explicação da Revelação, dependeria das circunstâncias históricas.

A Apostolicidade: nós nos vinculamos aos Apóstolos pela autoridade. Meu sacerdócio vem através dos Apóstolos; vosso sacerdócio vem através dos Apóstolos. Nós somos filhos daqueles que nos deram o episcopado. Nosso episcopado descende do Santo Papa Pio V e através dele chegamos até aos Apóstolos. Quanto à Apostolicidade da fé, nós cremos na mesma fé que foi a dos Apóstolos. Nós não mudamos nada e nem queremos mudar nada.

E enfim, a santidade. Não nos faremos louvores e cumprimentos. Se não quisermos considerar a nós mesmos, consideremos os outros, e consideremos os frutos de nosso apostolado, os frutos vocacionais, de nossas religiosas e também dentro das famílias cristãs. Boas e santas famílias cristãs germinam, graças a vosso apostolado. É um fato, ninguém o pode negar. Mesmo nossos visitantes progressistas de Roma constataram a boa qualidade de nosso trabalho. Quando Mons. Perl disse às irmãs de Saint-Pré e às irmãs de Fanjeaux que é com base como a delas que se deverá reconstruir a Igreja, não é um pequeno elogio.

Tudo isso mostra que somos nós que possuímos os sinais da Igreja visível. Se ainda existe uma visibilidade da Igreja hoje em dia, é graças a vós. Estes sinais, não se encontram mais nos outros. Não existe mais neles unidade da fé; ora, é precisamente a fé que é a base de toda a visibilidade da Igreja.

A catolicidade é a fé no espaço. A Apostolicidade é a fé no tempo, e a santidade é o fruto da fé, que se concretiza nas almas pela graça do bom Deus, pela graça dos sacramentos. É completamente falso considerar-nos como se não fizéssemos parte da Igreja visível. É inacreditável. É a Igreja oficial que nos rejeita, não somos nós que rejeitamos a Igreja, longe de nós. Ao contrário, nós estamos sempre unidos à Igreja romana e mesmo ao Papa, evidentemente, ao sucessor de Pedro. Penso que devemos ter esta convicção para não cair nos erros que estão sendo espalhados agora.

Sair da Igreja?

Evidentemente, poderão objetar-nos: “Deve-se, obrigatoriamente, sair da Igreja visível para não perder sua alma, sair da sociedade dos fiéis unidos ao Papa?”

Não somos nós, mas os modernistas que saíram da Igreja. Quanto a dizer “sair da Igreja VISÍVEL” é equivocar-se assemelhando Igreja oficial e Igreja visível.

Nós pertencemos à Igreja visível, à sociedade dos fiéis sob a autoridade do Papa, pois, não recusamos a autoridade do Papa, mas o que ele faz. Nós reconhecemos que o Papa tem autoridade, mas quando ele a usa para fazer o contrário daquilo que lhe é facultado fazer, é evidente que não podemos segui-lo.

Sair, portanto, da Igreja oficial? Em uma certa medida, sim, evidentemente. Todo o livro de Jean Madiran, “A Heresia do século XX”, é a história das heresias dos Bispos. É necessário, portanto, que saiamos do meio destes Bispos, se não desejamos perder nossa alma.

Mas isso não é suficiente, posto que é em Roma que a heresia se instalou. Se os Bispos são heréticos (mesmo sem tomar este termo no sentido e com as conseqüências do direito canônico), não é sem a influência de Roma.

Se nós nos distanciamos deste tipo de gente, é com a mesma precaução que se toma para com as pessoas que estão com AIDS. Não queremos nos contaminar. Ora, eles estão com AIDS espiritual, uma doença contagiosa. Se quisermos guardar a saúde, não devemos aproximarmo-nos deles.

Sim, o liberalismo e o modernismo se introduziram no Concílio e no interior da Igreja. São ideias revolucionárias e a Revolução, que encontrávamos na sociedade civil, passou para dentro da Igreja. O Cardeal Ratzinger não mais esconde esse fato: eles adotaram as ideias não da Igreja, mas do mundo e eles acham que devem fazê-las entrar na Igreja.

Ora, as autoridades não mudaram sequer uma vírgula de suas ideias sobre o Concílio, o liberalismo e o modernismo. Eles são a anti-Tradição, Tradição como a Igreja compreende e como entendemos. Essa noção não entra no conceito deles. Pois sendo o conceito deles evolutivo, eles são contra essa Tradição fixa, na qual nós nos mantemos. Estimamos que tudo aquilo que nos ensina o catecismo nos vem de Nosso Senhor e dos Apóstolos e que nada mudou. Isto é claro. As três partes do catecismo nos vêm de Nosso Senhor. Por que mudá-las? Nós não podemos evoluí-las. O Credo, os Mandamentos de Deus, os meios de nos salvar, os Sacramentos, o Santo Sacrifício da Missa e a oração, tudo isso, vem diretamente de Nosso Senhor. Tudo isso, é nosso catecismo, que nos é dado, geralmente, com nosso batismo, que nos é colocado entre nossas mãos. Tudo isso é nosso estatuto, desde o momento que Nosso Senhor desejou que todos fossem batizados, que todos adotassem o Credo, o Decálogo, os Sacramentos que Ele instituiu, bem como o Santo Sacrifício da Missa e as orações. Para eles, não, tudo isso evolui e evoluiu com o Vaticano II. O fim atual da evolução é o Vaticano II. É por isso que nós não podemos nos ligar a Roma. Teria sido possível, se tivéssemos podido nos proteger completamente como, de fato, pedíamos. Mas eles não quiseram. Eles recusaram os membros que pedíamos para a comissão, eles recusaram o número de Bispos que pedíamos, recusaram o número de Bispos que eu lhes apresentei. Estava claro: eles não queriam que estivéssemos protegidos. Eles queriam ter-nos diretamente debaixo de seus golpes e poder, assim, impor-nos esta política anti-Tradição da qual eles estão imbuídos.

Roma não mudou

Um exemplo mostra-nos que nada mudou no espírito dos que estão em Roma: em 1º de maio (1988), em Veneza realizou-se um importante congresso sobre a liberdade religiosa nas atuais situações políticas. Esse congresso foi dirigido pelo reitor da Universidade de Latrão, Mons. Pierre Rossano, famoso por suas ideias liberais, e Mons. Pavan, que é o autor de, praticamente, todos os documentos sociológicos publicados desde o Papa João XXIII, de todos os documentos que dizem respeito à sociedade. As encíclicas dos Papas João XXIII, Paulo VI e João Paulo II foram praticamente redigidas por ele. É o grande pensador do Vaticano.

Foram estes dois prelados que fizeram e dirigiram essa reunião de Veneza sobre a liberdade religiosa dentro das situações políticas. É muito interessante notar o que eles dizem a respeito da liberdade religiosa: "Mudança da concepção da liberdade religiosa". Eles não se escondem. Eles falam da influência da Segunda Guerra mundial. Eles buscam motivações longínquas: já sob Pio XII realiza-se uma tomada de consciência da liberdade religiosa, realizada na tragédia da Segunda Guerra mundial. Isso permitiu, para utilizar uma frase estereotipada, A PASSAGEM DO DIREITO DA VERDADE AO DIREITO DA PESSOA.

Examinemos um pouco melhor essa frase. O direito da verdade nos ensina que existe a liberdade da verdadeira religião, mas que o homem não possui a liberdade de escolher a sua religião, de escolher a verdade. Somos feitos e criados com inteligência e vontade livres, não resta a menor dúvida, mas essa liberdade só deve servir para nos fazer aderir à verdade e não a outra coisa. Pois um laço fundamental, essencial, une a liberdade e a verdade. Romper este laço para dizer: a partir de agora, compreendemos que não se trata mais de ligar liberdade com verdade, mas liberdade e natureza humana, é um erro fundamental. Nossa própria natureza, com a inteligência e a vontade, é feita para aderir à verdade. E, eis que agora (e os autores do congresso de Veneza o escreveram em seus relatórios) suprime-se o direito da verdade (que é o laço que por natureza une o sujeito à verdade) para colocar em seu lugar o direito da pessoa, um direito inteiramente independente. Esse direito estaria fundado sobre a natureza, mas considerada dentro de sua dignidade de sujeito livre, ou seja, autônomo e sem laços. E os ditos autores precisam que isso deve ser particularmente verdadeiro em matéria religiosa, que trata da orientação da vida. É preocupante. Como se pudéssemos mudar coisas tão profundas na natureza. Deus nos criou para a verdade, Ele não nos deu a liberdade para escolhermos o erro. Não é possível. Não temos o direito ao erro. Ora, praticamente, é a isto que conduz a liberdade religiosa: permitir à natureza de escolher livremente a sua verdade, é dar-lhe direito ao erro.

E, segundo essa teoria, todos os países deveriam aceitar isso, sem se lhe opor no limite da ordem pública. Mas a ordem pública é muito extensa! Estas sociedades deveriam aceitar o ecumenismo, a laicização dos estados, a liberdade de culto. Elas deveriam reconhecer como diretivas tudo aquilo que o homem pode retirar de si mesmo, as ideias que puderem conceber, os conceitos religiosos forjados por eles mesmos.

Depois da afirmação da liberdade religiosa, eles reafirmam o princípio absolutamente revolucionário da Declaração dos Direitos do homem. É verdadeiramente um princípio satânico: non serviam, “eu não quero servir”, não quero ser submisso à verdade. Mas se Deus nos impõem uma verdade, assim será. “Aquele que não crer será condenado”. Que exista a tolerância religiosa pelo fato das pessoas enganarem-se, é admissível, mas o princípio da liberdade religiosa não existe e não pode existir.

Eu tinha que vos dizer isso, para que vejais bem, que Roma não mudou em nada. Não é uma acusação vazia, mas retirada dos relatórios oficiais da reunião de Veneza, que aconteceu recentemente: 1º de maio. O reitor da universidade de Latrão é a cabeça de toda a formação universitária da Igreja de Roma. São os representantes oficiais de Roma. E eis o que eles reafirmam. Nada mudou. Não podemos seguir pessoas como estas. São erros graves, profundos.

Aconteça o que acontecer, devemos continuar, e o bom Deus nos mostra que seguindo esta via nós cumprimos o nosso dever. Não negamos a Igreja Romana. Não negamos a sua existência, mas não podemos seguir suas diretivas. Não podemos seguir os princípios do pós-Concílio. Nós não podemos ligar-nos a eles.

Só existe uma Igreja,...... a Igreja conciliar!

Percebo a vontade de Roma de nos impor suas ideias e suas maneiras de ver. O Cardeal Ratzinger sempre me diz: “Mas Excelência, existe apenas uma Igreja, não se deve fazer uma Igreja paralela”. Qual é esta Igreja, para ele? A Igreja conciliar, é evidente. Quando ele nos disse explicitamente: “Evidentemente, se lhe damos, neste protocolo, alguns privilégios, o senhor deve, também, aceitar o que fazemos; e conseqüentemente, na Igreja São Nicolas-du-Chardonnet deve-se celebrar uma Missa Nova todos os domingos”, vós bem vedes que eles querem nos arrastar para a Igreja conciliar. Isso não é possível, pois, é claro que eles querem nos impor essas novidades para acabar com a Tradição. Eles não concederão nada por estima pela liturgia tradicional, mas, simplesmente, para enganar aqueles a quem eles o oferecem e para diminuir nossa resistência, encontrar uma brecha no bloco tradicional para destruí-lo. É a política deles, sua tática consciente. Eles não se enganam, e vós conheceis a pressão que eles fazem. Entre vós, alguns já foram pressionados pelo Bispo ou por outrem
para deixardes a Tradição. Eles fazem esforços consideráveis em todos os lugares.

As irmãs de Saint-Pré foram visitadas pelo Pe. Philippe que tentou doutriná-las. Mas vos asseguro que ele não foi recebido de braços abertos. O Bispo de Carcassonne ofereceu amizade e compreensão para com as irmãs de Fanjeaux e ao nosso Pe. Pozzera. E o bispo também foi devidamente convidado a se retirar. Mas eles continuam. Eles voltarão. O Pe. Innocent-Marie telefonou-me recentemente e me disse que ele estava sendo vítima de pressões do Bispo de Angers. Agora eles não cessarão de tentar nos capturar. É verdadeiramente incrível essa guerra movida contra a Tradição. [...]

Penso que se deve evitar tudo aquilo que puder manifestar, por meio de expressões muito duras, nossa desaprovação àqueles que nos deixam. Não devemos enchê-los de epítetos que podem ser vistos como injuriosos. Isso de nada nos serve, pelo contrário. Pessoalmente, sempre tive essa atitude para com aqueles que nos deixam - e Deus sabe quantas vezes isso aconteceu durante a história da Fraternidade; a história da Fraternidade é quase que a história das separações - Sempre tive como princípio: não mais ter relações, acabou. Eles nos deixaram, eles irão a outros pastores, a outros rebanhos: nenhuma relação mais. Tanto aqueles que partiram como “sedevacantistas” quanto aqueles que nos deixaram por não sermos suficientemente papistas, todos tentaram engolfar-nos em uma polêmica. Eu nunca respondi uma palavra. Rezo por eles, é tudo. [...]

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Caro leitor,

1- salientamos que seus comentários serão avaliados por nível de qualidade, utilizar de palavras irônicas para desrespeitar os escritores deste blog só te fará perder tempo, pois seu comentário não será aceito.

2- Palavras de baixo calão, ofensivas, caluniosas e baixas não serão aceitas e isso torna seu comentário impublicável.

3- perfis anônimos, fakes, sem foto e sem nome e/ou fictícios não serão aceitos.

4- Se você for modernista nem perca seu tempo comentando em defesa de sua pseudo religião vaticanista II.

5- Ofensas dirigidas ao clero da FSSPX serão automaticamente excluídas.

6- comentários fora dos padrões de coerência com o artigo serão excluídos.

7- Se não gostou do artigo, existem 3 quadrados no canto superior da sua tela, um deles possui um ''X'' clicando nele a sua tela fecha automaticamente evitando assim que você se contrarie mais com nossos artigos e caso queria ser mais prático é só usar o atalho ''Ctrl Alt Del'' ou ''Alt F4''.


Agora fique a vontade pra comentar, seguindo as regras por gentileza.

Spes nostra in Deo est!!!

''As pedras que nos atirares, em flores se tornarão, perfume agradável e suave ao imaculado coração.''

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Receba nossas atualizações no seu email: