terça-feira, 21 de abril de 2015

AS AMIZADES ESPIRITUAIS

Santos Basílio de Cesareia, Gregório de Nissa, Gregório Nazianzeno e Macrina

Por Rev. Pe. Josemaría Mestre Roc, FSSPX


I. NATUREZA DAS AMIZADES ESPIRITUAIS

1. Que é amizade.

A amizade é um amor de benevolência fundado na comunicação de um bem : - amor  de benevolência: pois nem todo amor tem razão de amizade, senão só quando de tal maneira amamos a alguém, que queremos o bem para ele; - o amor mútuo: pois se pode amar sem ser amado, e nesse caso não há amizade; para ela se requer, ademais da benevolência, certa mútua reclamação de correspondência, porque o amigo é amigo para o amigo; amor fundado em certa comunicação que manifeste sua mútua benevolência; pois os amigos, para sê-los, se hão de dar conta de seu recíproco amor; se o ignoram haverá amor, mas não amizade. Requer-se assim que haja entre elas alguma classe de comunicação, é precisamente o fundamento da amizade.


2. Classes de amizades.

Segundo as diferentes classes de comunicação, as amizades podem ser: -  más, quando se fundam nas comunicações de deleites carnais (motivo pelo qual, se no próprio matrimônio não houvesse outra classe de comunicação, não mereceria o nome de amizade); - frívolas, quando se fundam em comunicação dos bens dos sentidos (como o prazer de contemplar a formosura, escutar a voz melodiosa), ou de dotes frívolos (isto é, de certas habilidades vãs que os espíritos superficiais consideram perfeições); - e boas, quando se fundam em qualidades espirituais, como a virtude (prudência, discrição, fortaleza, justiça).

3. A amizade espiritual.

Entre estas amizades boas se encontram as amizades espirituais, que não só se fundam no simples amor de caridade (que é uma virtude que devemos a todo homem), senão na comunicação de suas aspirações e afetos espirituais, na devoção e perfeição cristã, que duas ou três almas, unidas por este laço, buscam formando um só espírito entre si. Sem descuidar as amizades boas que a natureza ou os próprios deveres obrigam a cultivar entre parentes, achegados, benfeitores, vizinhos e outros semelhantes, é necessário, no que tange às amizades eleitas expressamente por vontade própria, não contrair senão amizades espirituais.

II. IMPORTÂNCIA DAS AMIZADES ESPIRITUAIS

O quanto é importante contar com verdadeiros amigos espirituais no caminho da perfeição se deduz das seguintes razões:

1. Nos começos, a debilidade da alma é muito grande.

Para encontrar a Deus, (a alma) se isolou talvez de seu meio familiar e social; os consolos sensíveis e as facilidades dos primeiros dias deixaram lugar À securas na oração e às dificuldades na prática das virtudes. Para permanecer fiel À este isolamento lhe será necessário a companhia e a ajuda do próximo.

2. Ademais, Deus fez o homem sociável.

Desde então, a ajuda e a sociedade de seus semelhantes é uma lei e uma necessidade de sua natureza. Não só a solidão seria dolorosa para seu coração, senão que ademais deixaria impotente e estéril. A colaboração é a condição necessária de seu desenvolvimento pessoal e mais ainda da fecundidade e da atividade que o prolonga e o multiplica. Agora bem, como a graça se enxerta na natureza, Deus estendeu esta lei e estas exigências da ordem da natureza ao domínio sobrenatural, submetendo-se Ele mesmo À elas: para realizar a redenção, Jesus Cristo escolheu uma colaboradora, a Virgem Maria, a quem associou como Mãe a toda sua obra de paternidade espiritual. Portanto nossa santificação não pode ser fruto exclusivo de nossa atividade pessoal: ela exige colaboração.

III. VALOR DAS AMIZADES ESPIRITUAIS

O estímulo e estímulo de um verdadeiro amigo é um dos mais eficazes para a conquista de si mesmo e a prática do bem; porque a amizade verdadeira é “uma aliança de suas almas que se unem para obrar o bem” (Bossuet). A verdadeira amizade é desinteressada, paciente até o heroísmo, sincera e transparente. Não conhece a duplicidade nem a hipocrisia, louva os amigos em suas boas qualidades, mas lhe descobre com santa liberdade seus defeitos e fraquezas com o fim de corrigí-lo delas. Nada tem de sensual; se aprecia e ama unicamente o valor moral do amigo.
Três são as principais vantagens de uma verdadeira e santa amizade; a de encontrar no amigo:
1. Um conselheiro íntimo, ao que confiamos os problemas da alma para que nos ajude a resolvê-los;
2. Um corretor prudente e afetuoso, que nos dirá a verdade sobre nossos defeitos e nos impedirá de cometer inumeráveis imprudências.
3. Um consolador, enfim, que nos escutará com carinho o relato de nossas dores e encontrará em seu coração as palavras e remédios oportunos para suprimi-los ou suavizá-los. “Um amigo fiel é poderoso protetor; o que encontra acha um tesouro. Nem o ouro e nem a prata valem tanto como um amigo fiel; seu preço é incalculável. Um amigo fiel é remédio saudável; os que temem ao Senhor o encontrarão” (Eclesiástico, VI, 14-16).

IV. DESVIOS PERIGOSOS DAS AMIZADES ESPIRITUAIS

É mister andar sobre avisados para que as amizades boas e verdadeiras, especialmente as espirituais, que nos orientam à nossa santificação, se mantenham sempre dentro de seus autênticos limites e não transbordem nunca as margens da virtude e do bem. Em efeito, se é certo que um amigo é poderoso estímulo para a virtude, não é menos que apenas pode encontrar-se uma força destruidora mais temível que a de uma má amizade.
O passo de uma classe de amizade à outra pode fazer-se gradual  e imperceptivelmente, sobretudo entre pessoas de diferentes sexos: se começa por amor virtuoso, mas se não se usa com discrição, pronto anda em jogo o amor frívolo, depois o sensual e finalmente o carnal, porque em nossa natureza ferida pelo pecado, o amor tende a decair às regiões inferiores e a transbordar-se pelos sentidos. O mesmo perigo há no amor espiritual se não se está alerta, ainda que o perigo não seja tão grande, porque sua pureza e candor fazem ressaltar mais as argúcias de Satanás.

Observação – Na vida sacerdotal ou religiosa (i.é. seminários e noviciados), Deus há disposto as amizades de modo que sejam todas espirituais: se baseiam na comunicação de mesmos ideais de santidade. Por isso, qualquer amizade particular contra o Regulamento ou as Constituições suporá sempre uma queda à uma amizade sensível e, portanto, reprovável. Daí a energia com que os fundadores de Ordens hão combatido sempre as amizades particulares na vida religiosa.

1. Os sinais ou manifestações principais pelas que se pode entrever que uma amizade, santa ao princípio, começa a degradar-se, são as seguintes:  - exclusivismo nos afetos e relações: não se tolera um sinal de carinho dada a outro pelo amigo; -  estar pensando sem cessar no amigo,  ainda durante a oração, no estudo, no trabalho absorvente; - necessidade de ver-lhe ou de falar-lhe a cada momento, ou tristeza de não encontra-lo onde se lhe esperava; -  conversações inacabáveis e fora de propósito quando estão juntos; - intercâmbios exagerados de pequenos dons ou outros testemunhos de afeto; tendência a escusar todo (defeito) no amigo.

2. Os remédios para controlar este desvio na amizade são os seguintes: - se está todavia em seus inícios,  é preciso moderar as primeiras manifestações deste desvio, para manter a amizade nas margens que a fazem proveitosa, cortando rapidamente, cm serenidade e sem nervosismo, mas de maneira decidida, pois ao princípio custa menos que se deixamos imprudentemente que tomem força aquelas primeiras manifestações; -  se já se arraigou no coração  a amizade sensível e sensual, o perigo é grave e o remédio urgente: há que romper-se com dita amizade decididamente, sem voltar- os olhos para a outra pessoa, pois se tratam de ataduras contrárias ao amor de Des, evitando para isso toda conversa à sós, todo encontro às escondidas, todo olhar terno, os sorrisos afetuosos, e em geral toda sorte de comunicações que possa alimentar esse fogo pestífero e mortal.


(Extraído de Cuadernos de La Reja, nº 2”, 1998, Catecismo da Vida Interior, III Parte, Cap. 4, Art. 2, C, tradução por Luiz Mergulhão) 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Caro leitor,

1- salientamos que seus comentários serão avaliados por nível de qualidade, utilizar de palavras irônicas para desrespeitar os escritores deste blog só te fará perder tempo, pois seu comentário não será aceito.

2- Palavras de baixo calão, ofensivas, caluniosas e baixas não serão aceitas e isso torna seu comentário impublicável.

3- perfis anônimos, fakes, sem foto e sem nome e/ou fictícios não serão aceitos.

4- Se você for modernista nem perca seu tempo comentando em defesa de sua pseudo religião vaticanista II.

5- Ofensas dirigidas ao clero da FSSPX serão automaticamente excluídas.

6- comentários fora dos padrões de coerência com o artigo serão excluídos.

7- Se não gostou do artigo, existem 3 quadrados no canto superior da sua tela, um deles possui um ''X'' clicando nele a sua tela fecha automaticamente evitando assim que você se contrarie mais com nossos artigos e caso queria ser mais prático é só usar o atalho ''Ctrl Alt Del'' ou ''Alt F4''.


Agora fique a vontade pra comentar, seguindo as regras por gentileza.

Spes nostra in Deo est!!!

''As pedras que nos atirares, em flores se tornarão, perfume agradável e suave ao imaculado coração.''

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Receba nossas atualizações no seu email: